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terça-feira, 7 de maio de 2013

O Livreiro













* “Hoje se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver”.

(Tzvetan Todorov)

-- Olha o livro! Olha o livro!

Assim ia de porta em porta; de casa em casa, seu Antunes de Assis, ou popularmente conhecido como seu Tunico. Desta forma começou sua aventura como livreiro. Fazia isto desde a sua juventude. Gostou tanto do ramo que, com muito esforço e dedicação, conseguiu abrir uma pequena livraria no bairro de Sãens Pena, no Rio de Janeiro, perto de uma Universidade. Seu negócio, que espalhava saber e instrução, ficou muito conhecido pelos alunos e professores universitários que circulavam pelas redondezas. Porém, seu público não era formado apenas por “intelectuais”. Ali também frequentavam pessoas comuns que somente gostavam e gostam de literatura ou mesmo de uma boa leitura.

Seu Tunico já beirava a casa dos sessenta e cinco anos, era baixinho, moreno, cabelos grisalhos, que impunham respeito além de sua conduta exemplar. Casado com dona Diná e pai de dois filhos que, admirando o gosto do pai pelo conhecimento, enveredaram pelos caminhos das letras: Paulo se tornou advogado e Helena professora de História. Situações estas bem contrastantes com as de seu Antunes, que assim como a esposa, só tinha o ensino fundamental incompleto; parou por volta do sétimo ano, antiga 6ª série, isto para trabalhar e ajudar a família de origem humilde. Dava-se muito bem com a esposa, mulher madura de cinquenta e cinco anos e bastante companheira nas horas difíceis e alegres, era seu grande amor. 
Também mantinha bom relacionamento com os filhos, estes já casados e bem arrumados na vida. De cada um dos dois recebeu uma netinha: Ellen (8 anos) de Paulo e Joana (5 anos)  de Helena. Umas gracinhas de crianças e que eram, junto com os pais, outro grande amor de sua vida. Morava numa casa simples, mas com dignidade, no bairro da Penha perto do Hospital Getúlio Vargas. Todavia, suas mais marcantes características eram: a humildade, a paciência e a paixão pelos livros, era um leitor voraz. Só deixava um pouco a humildade de lado quando se gabava do seu sobrenome “de Assis”. Pois fazia menção ao seu autor predileto: Machado de Assis.    

No trabalho, sabia tudo. Tanto de vender como de conhecer as obras e os clientes. Já havia lido quase todo o seu estoque de livros e fazia questão de ler os lançamentos novos para poder indicá-los com mais segurança aos fregueses. Aliás, em se tratando de conhecer o gosto e a vida dos clientes, não havia ninguém igual ao seu Tunico. Recebia todos com muita atenção e entusiasmo. Indicava livros, dando sugestões de leitura e, quando percebia que algo não estava bem com a pessoa, se oferecia para uma conversa; é lógico que não tão demorada para não atrapalhar o serviço e não deixar tudo nas costas dos dois funcionários, que procuravam manter seus empregos e aos quais ele remunerava com muito esforço. O certo é que essas conversas, que mais pareciam atendimento psicológico, sempre acabavam em uma ou mais sugestão de livros. Não é que o paciente e “psicólogo” livreiro estivesse se aproveitando dos problemas alheios, não. Seu Tunico acreditava que para cada situação da vida, seja ela boa ou ruim, há sempre uma literatura esperando para ser lida e assim agir de maneira positiva para, quem sabe, ajudar na solução do problema.

O fato é que além de “consultório” (para os que andam com pressa e querem soluções rápidas), a livraria passou a ser também vista como uma espécie de “Farmácia”; sim igualzinha àquela que os antigos (embora isto ainda exista) frequentavam e, por conhecerem bem o farmacêutico e este os seus familiares, lhe pediam diagnósticos, sugestão de medicamentos; até por confiarem mais nele do que nos médicos, não é mesmo?! Bem, nessa visão alegórica que une costumes antigos, usos atuais e farmacológicos, seu Antunes funcionava como um desses “farmacêuticos de plantão”. Ora fornecia pílulas de microcontos, provérbios e pensamentos como calmantes. Ora indicava analgésicos de poesias drummonianas, bandeirianas, murilianas, gullarianas, e assim foi.... Para alguns, “Medicava” cápsulas de antidepressivos em forma de livros de piadas e histórias engraçadas e, aos mais debilitados pelas “infecções” do intelecto e que estavam acostumados com “medicamentos pesados” e “tratamentos demorados”, vendia os romances históricos; desse jeito, alguns iam sendo “curados” e outros acabavam por parar no “CTI das letras”, exaustos de leituras, mas cheios de conhecimento.      

Noutro dia, chegou um tal de Daniel, rapaz esguio, beirando seus 16 anos e com o rosto cheio de espinhas. Estava com um problema “sério”: um relacionamento mal resolvido com uma moça. Ao ouvir suas lamúrias, seu Tunico consolou o jovem e indicou um desses romances para adolescentes e até que a história da narrativa era parecida com a aventura amorosa do novel casal; e o melhor, com final feliz. E a coisa foi seguindo assim. A cada dia uma novidade.

O senhor Hermes apareceu lá na livraria se queixando de problemas com os seus filhos. Recebeu a indicação de um desses manuais para entender e educar bem a prole. Voltou para agradecer o resultado.

-- Valeu seu Antunes! Foi batata! Agora já sei como lidar com os moleques! Por favor, me indique um romance, pois tomei gosto por essa coisa de ler.

Saiu com um exemplar de Esaú e Jacó, do mestre Machado de Assis. Será que seu Tunico exagerou na dose? Provavelmente não.

Ainda sobre problemas familiares, uma jovem chamada Sophia pediu conselhos ao livreiro para saber como resolver a dificuldade de se relacionar com o pai. Como era muito geniosa e farrista, o sábio comerciante colocou nas mãos dela alguns romances bem românticos do tipo A moreninha para ver se ela ficava meigamente amorosa e parava um pouco mais em casa e aí, quem sabe, a conversa ficaria mais fácil com seu progenitor.

Estácio estava na pior por causa do desemprego. Entrou num sábado na livraria, olhou os livros nas estantes e perguntou se não havia vaga na loja. Seu Tunico, com uma prosa e meia de conversa, percebeu que o camarada tinha “tino pro comércio”. Perspicaz como um descobridor de talentos, olhou para as estantes, divisou um título, retirou-o de lá e o entregou ao futuro comerciante, na realidade deu o livro para ele (já que o pobre não tinha no bolso um tostão). O manual oferecia ao seu leitor a seguinte proposta: “Como abrir seu primeiro negócio”. O cara saiu feliz da vida e nunca mais voltou.

Dona Aurora de 80 anos chegou numa segunda-feira, logo de manhã, após acordar bem cedo e ir à padaria, como é costume dos anciãos. Com uma bolsa que mais parecia para ir à feira do que a uma livraria, pediu alguma coisa que melhorasse a sua saúde, pois não aguentava mais conviver com as suas companheiras: a artrite, a artrose e as dores reumáticas. A princípio o dono do estabelecimento pensou em indicar o Pronto Socorro mais próximo, porém depois seu Tunico pensou: “os idosos também têm o direito a uma boa leitura”. Entretanto, naquele caso específico, a indicação foi precisa: Um manual de boa saúde. A senhora de cabelos branquíssimos agradeceu, comprou e, de vez em quando, passava folheando o livro, dando aquele sorriso vazio, mas sempre simpático.

Ulisses apareceu com muitas dúvidas sobre como redigir tecnicamente a sua Monografia de Final de Curso. Ele aparentava ter 20 anos. Negro, alto, usando um par de óculos com lentes de “fundo de garrafa”, grossas, uma imagem bem intelectual. Cursava Letras e portava alguns livros na mão direita e uma enorme mochila nas costas. Perguntou ao seu Antunes sobre vários compêndios. Ao ouvir tantas negativas do vendedor, começou a bater um desespero.

-- Senhor! Eu tenho que entregar a monografia semana que vem e hoje já é sexta-feira. Por favor! Ajude-me a encontrar um manual que explique os detalhes técnicos da redação acadêmica!

Seu Tunico primeiramente questionou:

-- Por que os professores não o orientaram quanto ao trabalho científico?

-- Eu...eu.. “matei” quase todas as aulas de “metodologia da pesquisa” e agora tenho vergonha de recorrer aos professores.

Ouvindo a resposta, o ancião amante das letras desistiu de continuar o interrogatório. Mesmo com “ar” crítico, Seu Tunico sugeriu uma obra propícia: Como redigir trabalhos acadêmicos. O jovem comprou e agradeceu a sugestão. Outro dia passou por lá, com esse livro na mão esquerda e a mochila murcha nas costas. Deu um “oi” pro dono da livraria, entrou, comprou Grande sertão: veredas e seguiu sem graça o seu caminho.

Mas não pense que somente de dificuldades amorosas, familiares, físicas, e acadêmicas vivia a livraria. Não. Teodora surgiu de mansinho e trouxe consigo uma experiência nova para o “consultório da alma” tão bem administrado por seu Antunes, a saber, pediu sugestões de livros espirituais. Segundo essa gentil senhora de olhar apreensivo, seu espírito precisava ser “tocado” por algo transcendental. O calejado conversador, porém aprendiz de teologia, apresentou-lhe livros devocionais, de meditações e de doutrinas. É claro que não podia faltar a Bíblia já que seu Tunico observou o cordão com uma cruz adornando o tenso pescoço daquela dona. Aproveitou a oportunidade e vendeu, além dos livros religiosos, uma coletânea de poemas de Adélia Prado, grande poeta que aborda as questões da alma com beleza e riqueza de profundidade. Teodora retornou algumas vezes. Parecia mais aliviada, entretanto, não largou mais a Adélia, Cecília, Cora Coralina, Clarice Lispector...

 Depois de lidar com os “embrulhos espirituais”, o incansável livreiro testou seus conhecimentos de psicologia infantil e de pedagogia, quando começou a conversar mais vezes com Rosa, uma menina de 8 anos e que ia à tardezinha à livraria com a mãe para ver alguns livros de literatura infanto-juvenil. Aos poucos ele foi percebendo que a garota, por trás daquele sorriso gostoso e cativante, possuía um olhar triste e distante.

Puxando conversa com a mãe da menina para ver se descobria algo que explicasse aquele semblante paradoxalmente risonho e triste, seu Antunes encontrou nela uma mulher fria e indiferente com relação à filha. O experiente livreiro foi logo “matando” a charada. Parecia que o relacionamento entre as duas não era “lá essas coisas”. Pelo jeito, a mãe dava tudo que a menina pedia, mas não dava o mais importante: atenção, a conversa, a presença.

Pensando em melhorar a situação, seu Tunico mostrou alguns exemplares de literatura infantil para a mãe e pediu que ela os lê-se, pois seria importante que a menina visse o exemplo de leitura em sua própria casa. Além do mais, aquela jovem senhora teria condições de conversar sobre as histórias com a filha. Dito e feito. Não demorou muito para a garota voltar mais vezes à livraria com um rosto iluminado e sem aquele olhar triste. Ao conversarem, ficou nítido que a estratégia deu certo. Não apenas sua mamãe, mas também seu papai se interessou pelos livros infantis. Agora liam juntos e conversavam sobre histórias incríveis tais como: O fantástico mistério de feiurinha, O menino do dedo verde, A bolsa amarela, O reizinho mandão, os contos de Perrault, dos irmãos Grimm e as histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo... A autoestima da menina subiu, e o mais interessante, a dos adultos também. Detalhe: sem precisarem de livros de autoajuda. Isso foi muito legal.

Bem, não pode ficar de fora desse breve registro das “aventuras terapêuticas” de seu Tunico, aquele que, sem dúvida, foi o caso mais marcante dentre essas histórias de aconselhamento. O fato envolveu uma senhora de quarenta anos chamada Adelaide. Ela frequentava toda semana a livraria. Olhava um livro e outro, porém quase sempre não levava nenhum. Seu Antunes percebeu isso e logo se aproximou para entender se era a falta de opções de sua loja ou se havia alguma outra situação que ele desconhecia. Isto é, aquelas de fórum íntimo que ele tão bem aprendia a cada dia escutar.

No início, Dona Adelaide recusou a aproximação. Deu mostras que apenas queria comprar um determinado livro que, semana após semana, procurava, mas não encontrava. Esta atitude não convenceu o determinado conselheiro, mesmo porque a dona já apresentava sinais de aflição. Assim, ele insistiu buscando sempre um argumento para esticar a conversa, tornando-a mais agradável e próxima.

Até que um dia Dona Adelaide chamou o dono da livraria, revelou-lhe seu nome e pediu uma conversa em particular. Ela estava aflita. Seu semblante descaído. Suas mãos trêmulas e a boca seca. De morena ficou branca. Seu Tunico rapidamente puxou-a para uma cadeira no seu cubículo que ele chamava de escritório. Deu um copo de água para a senhora e notou que as lágrimas já começavam a escorrer pelo seu rosto relativamente bonito, mas marcado pelo sofrimento angustiante como o de quem guarda um segredo e o sufoca até não poder aguentar mais.

Aquela ansiosa senhora começou o diálogo falando que tinha uma família linda. Dois filhos já rapazes formados tanto na estatura quanto na maturidade. Elogiou muito seu esposo dizendo o quanto ele era bom para ela e para os filhos. Trabalhador, honesto e que nunca deixava faltar nada em casa. Inclusive, reformava-a sempre almejando a melhor estética aliada a um bom conforto. Quis dizer que possuía motivos de sobra para ser feliz. Isso deixou seu Antunes preocupado. Ele pensou: “será que esta mulher traiu o marido?!”. Mesmo apreensivo com esta possibilidade, tomou coragem e perguntou:

-- Então, por que a senhora está desse jeito, tão aflita se tem tanta coisa boa em sua vida?

Adelaide respirou fundo e disse:

-- Há três meses eu fui ao médico para saber o resultado de um exame, mamografia. E recebi a notícia que toda mulher nunca deseja ouvir. Estou com um nódulo em uma das mamas. Ao escutar isso, as forças me faltaram e parecia que o chão havia sumido debaixo dos meus pés. A doutora me tentou tranquilizar e falou que podia ser benigno e que eu deveria esperar a biópsia. Na semana seguinte, fiz o exame e somente hoje tive coragem para pegar o resultado. Deu positivo. Estou com câncer. Tenho poucas amigas por aqui, porém não consegui falar sobre isso nem com a minha família. No auge do desespero, pensei no senhor e na sua fama de ajudar os outros. Por favor, o que eu faço? Como contar isso para meu marido e meus filhos?

O inseparável amigo dos livros pensou, pensou e pensou. E falou:

-- Dona Adelaide, por mais difícil que seja, precisa contar a eles. A sua família tem o direito de saber. E, além disso, eles poderão ajudá-la muito mais do que eu nesse processo doloroso e desgastante. Hoje, mais do que nunca a senhora precisa da força e do amor deles para superar esse período. Vá para casa, reúna forças e, quando achar o momento apropriado, conte a seu marido e seus filhos. Isso vai fazer bem para a senhora também.

Dona Adelaide atendeu o conselho do livreiro e foi para casa.

Três semanas depois ela voltou mais confiante. Havia contado aos seus o fato da doença e tinha realizado a primeira consulta com uma mastologista, especializada em oncologia. Ia realizar uma cirurgia para remover o tumor e iniciar sessões de quimioterapia. Estava esperançosa porque o nódulo era pequeno e se encontrava na fase inicial, portanto as chances de cura eram altas. Sua família havia reagido bem na medida do possível. O esposo foi firme, embora tenha ficado chocado. Os filhos ameaçaram desespero e choradeira, mas Dona Adelaide foi muito forte e disse que necessitava do apoio deles e que para isso eles deveriam estar bem. Contou com detalhes a conversa e a reação de sua família para seu Antunes.

Depois de ouvir tudo, seu Tunico quis trazer a conversa para o mundo da literatura a fim de amenizar o papo e de dar um incentivo literário à vida de Dona Adelaide. Assim, combinou com ela que o “tratamento” seria o seguinte: a cada semana lhe indicaria um livro de acordo com o seu “estado de espírito”. E foi isso o que aconteceu.

Numa semana ela estava mais alegre e seu Antunes lhe indicava textos de Stanislau Ponte Preta. Noutra se encontrava “pra baixo” e o livro recomendado era Comédias para se ler na escola, de Luis Fernando Veríssimo, ou seja, mantendo a mesma linha de mexer com o humor daquela senhora. Neste “vai e vem”, Dona Adelaide leu muitos livros e foi se apaixonando por Aloísio Azevedo, Jorge de Lima, o outro Lima que é o Barreto, o outro Jorge que é o Amado, Paulo Mendes Campos, Rubens Fonseca, Ligia Fagundes Teles, Bernardo Carvalho, Rubens Figueiredo... .Ia melhorando no aprimoramento do gosto literário e também conseguia avançar na luta contra o câncer.

Fez a cirurgia para a retirada do tumor e as sessões de quimioterapia foram muito bem sucedidas em sua finalidade. Logo, com a ajuda divina, o amor da família, o apoio dos amigos, o tratamento acertado e a força da literatura; Dona Adelaide venceu a doença, e jamais abandonou os livros e a livraria.

Seu Tunico ficou muito feliz com a vitória daquela dona que ele aprendeu a gostar e ajudar. Continuou seu “sacerdócio” terapêutico e literário ainda por alguns anos até que numa manhã, após ajeitar alguns livros na estante, sentou-se para “degustar” uma obra que ele muito admirava: Memórias Póstumas de Brás Cubas. No meio da leitura, seu coração parou de bater. Recostou-se sobre a poltrona do micro escritório, deixando o livro aberto cair sobre o seu peito. Se ainda pudesse falar, como o personagem principal da história que recomeçara ler a instantes atrás, diria:

-- Morri da forma que desejava: no meu local favorito, praticando meu entretenimento predileto e com o livro do meu autor mais querido sobre o meu coração.

Foi sepultado com todas as honras de um literato. Todos que foram atendidos por ele no “consultório da alma”, os citados nominalmente e os não, compareceram ao enterro. Até mesmo a velhinha, em meio aos seus noventa e cinco anos, com seu Um manual de boa saúde. A família e dona Adelaide choraram muito. Acabou.

A filha de seu Antunes, Helena, assumiu a livraria já que seu irmão Paulo não tinha tempo por causa das múltiplas atividades no Escritório de Advocacia. Assim, ela ficou com a parte dele na herança e reformou a loja. Comprou a casa do lado e fez uma pequena lanchonete e um espaço com poltronas para os clientes lerem livros e confortavelmente tomarem o seu cafezinho. A livraria cresceu muito nas mãos de Helena, que igualmente amava os livros como seu pai. Pela manhã, deixava um gerente e dava aulas de história. À tarde, ficava na livraria e tentava fazer como o pai, dando sugestões de leitura, porém, não tinha a mesma habilidade de ouvir as pessoas como seu Antunes.

Em uma dessas tardes na livraria, vendo sua mãe, Dona Diná (ainda triste e chorosa pela perda do marido), as crianças Ellen e Joana sentadas em volta da avó ouvindo histórias contadas por ela; decidiu pegar para ler o último livro lido pelo pai. Ao abri-lo, achou uma folha meio amarelada contendo um texto com alguns erros de português, mas com uma história muito interessante. Lembrou-se de ter visto folhas iguais a essa na gaveta da mesa do agora bem mais espaçoso escritório de seu saudoso papai; pois foi até lá e pegou-as. Ao ler os textos, percebeu que seu Tunico anotava em forma de histórias as conversas que tinha com os clientes no famoso “consultório de psicologia literária”. Notou que ele preservou a identidade e os nomes das pessoas. Descobriu também que, ao longo dos textos, o inesperado escritor revelava vivências que ele mesmo desfrutara com os fatos narrados.

Helena não pensou duas vezes. Ela reformulou cada narrativa, e consertou os erros gramaticais, os de coesão e coerência textuais e publicou-os; dando ao livro a autoria do pai e o singelo título: O poder da literatura na vida da gente.

Seu Antunes morreu. Entretanto, seu legado permaneceu. Cumpriu seu papel de um verdadeiro livreiro, isto é, o de não apenas vender livros, mas, além e acima disso, o de espalhar o amor pela literatura.

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* TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2009. p. 23.



(Gilmar Cabral. Conto retirado do livro Histórias Recolhidas)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Raciocínio




           Era uma vez um caso. Um desses que pode acontecer com qualquer um. E não é que aconteceu com um coitado: José Confinado, o plebeu. Como o próprio aposto declara, não tinha muitas posses. Morava com uma mulher e dois filhos numa casa bem humilde, ganhava um pouco mais do que o salário mínimo numa repartição pública. Era auxiliar de serviços gerais. Um cara legal. Não se metia em confusões e nem em trambiques. Ele “curtia” mesmo todos os dias ir para o trabalho, ganhar o pão de cada dia e retornar para a sua família. Nos finais de semana, ir a Igreja e tentar se divertir com as crianças, geralmente na pracinha perto de casa, onde os brinquedos comunitários e alguns picolés entretinham seus filhos e esposa.
            Nessa vida quase trivial, nada de novo acontecia. O salário não aumentava, no trabalho era sempre a mesma rotina e não sobrava muito tempo e nem dinheiro para algo inusitado ou diferente. Tudo igual, igual e igual. Estava tudo tão igual que até mesmo ele, que era acostumado com a mesmice, começou a dar sinais de tédio.
       Motivado pelo seu desejo de mudança, mas sem saber como alterar nada, José Confinado então decidiu que ia retomar os estudos. Tinha parado no nono ano de escolaridade, a antiga 8ª série. Em casa, conversou com a mulher, que prontamente o apoiou. Decidido, e com a força da esposa, matriculou-se no mesmo Colégio Público em que seus filhos estudavam, só que no curso noturno; para fazer o Ensino Médio. Grande foi a luta de José. Porém, como sempre, o humilde trabalhador venceu mais esta. Conseguiu terminar seu curso em três anos.
            No dia da formatura, algo inusitado aconteceu e não foi o fato de José ser o orador da sua turma na cerimônia tão aguardada. Naquela manhã, o agora formando do Ensino Médio havia se dirigido ao seu trabalho como sempre fazia. Pegava às 7 horas. Ao chegar, caminhou para o banheiro após assinar o ponto e verificar que não tinha quase ninguém em seu setor de limpeza. E olha que este setor era bastante frequentado por pessoas que vinham para tirar alguns documentos. Ficava cheio o lugar. Mas naquela hora não havia muita gente. Entrou no banheiro e fechou a porta. Você deve estar se perguntando: “e o que isso tem de inusitado? Não está tudo normal?” Aparentemente, sim. Só que no dia anterior foi posto um aviso na porta do banheiro masculino, esse mesmo que José usava: “Por favor, ao entrar, não feche a porta”. José esqueceu que já havia lido o aviso. Entrou e se fechou. É isso aí: o recado foi colocado porque a porta estava sem a maçaneta que controlava a lingueta acima da fechadura. Assim, a porta, ao ser fechada, ficava trancada por faltar o instrumento para abri-la. Como a chave ficava presa e rodava somente para o trinco da fechadura, José se trancou.
            Num primeiro momento, o “Novel Encarcerado” nem percebeu o fato. Fez o que tinha que fazer: o número 1, e depois lavou as mãos lentamente após banhá-la com o sabonete líquido. Enxugou-as e, ao se dirigir à porta, a crise. Tentou abri-la e nada. Percebeu que se fechou. Lembrou-se do aviso e ficou muito irritado. Disse: “essa não! Porque que eu fechei a porta? Agora estou preso!” Daí, notou que seu departamento estava enchendo de pessoas. Na maioria, mulheres por causa de um benefício específico para elas. Pensou de novo: “que mico que eu vou pagar se começar a bater na porta ou gritar para alguém me tirar daqui, ainda mais quando souberem que sou funcionário deste mesmo setor.” E a multidão ia crescendo. Já fazia uma fila quilométrica. O desespero começou a tomar conta e ele se deu conta de que não havia levado o celular. Pronto: ligar para quem se não tinha como? Chutou a parede de raiva, mas sem fazer muito barulho para “não dar na pinta”.
            O tempo foi passando e José tentando sair. Enfiava o dedo no buraco da maçaneta e nada. Olhava pelo buraco produzido pela ausência dela e via a multidão se avolumando. E na sua maioria, para seu desespero, mulheres. O plano era o seguinte: ficar quieto e aguardar até que um homem tentasse ir ao banheiro, pois assim notaria que estava trancado e obviamente buscaria ajuda para abri-lo, e, com sorte, o Confinado se esconderia e depois sairia como se nada tivesse acontecido. Entretanto, parecia que os poucos homens que circulavam ali estavam, como ele, com a próstata em dia, ou seja, não sentiam aquela necessidade doida de urinar, como acontece com quem tem o aumento desse órgão. Ninguém do sexo masculino dirigia-se ao banheiro. Passava um pra cá e outro pra lá e nada de forçarem a porta para entrar.
            José olhava pelo buraco e lamentava ninguém aparecer. Pensou: “até umas 11 horas alguém deve vir aqui, não é possível!” Deu meio dia e ninguém foi lá urinar. Preferiram o banheiro do segundo andar, que sempre era mais limpo. Até a pessoa que estaria escalada para limpar o banheiro de José não foi trabalhar naquele dia. Que dia!
            O impaciente “prisioneiro” se desesperava a cada minuto perdido naquela prisão. Quase decidiu gritar e bater na porta para alertar as pessoas ali presentes, todavia a vergonha foi maior e ele resignou-se ao confinamento. A fome e o nervosismo agora competiam em seu ser. Lembrou-se que a mochila ainda estava com ele, pois entrara no banheiro com ela. Olhou em volta e a viu no canto, perto da porta do compartimento usado por ele. Pegou a mochila e confirmou que a esposa, justamente naquele dia, não arrumara a sua marmita, já que sairia cedo para se aprontar para a formatura. Lamentou, porém, se a pobre marmikente estivesse ali, já poderia ter estragado sem refrigeração ou “esquentação”. Achou uns biscoitos que a patroa havia colocado no lugar da marmita e festejou! Comeu sentado sobre a tampa do vaso sanitário. Também tomou uma garrafinha de suco de laranja ajeitado na lateral da mochila pela cuidadosa mulher.
            O tempo foi passando e o desespero voltou. Poderia perder a formatura, que estava marcada para às 18 horas, e ele era o orador. Já eram 14 horas e nada de usarem o banheiro. Talvez a porta trancada inibisse o uso por parte dos poucos homens que transitavam por ali. José tentava o dedo, uma caneta (que trazia no bolso), olhava em volta e não achava nada que pudesse fazer a vez da maçaneta. Novamente, sentou e disse em voz alta para si mesmo: “calma, José. Pense em algo com calma. Preciso me tranquilizar para encontrar um meio de sair daqui sem pagar mico. É só raciocinar.”
            O pensador refletiu, refletiu e olhou novamente para a mochila. Pressentia que ali estava a saída. Raciocinou e disse: “o meu chaveiro! Deve ainda estar aqui na mochila!”. E toma revirar a pobrezinha e tome procurar: abre os compartimentos e fecha, até que numa bolsinha lateral inferior, achou o chaveiro. Foi como se tivesse descoberto um diamante. Pulou de alegria! No entanto, a animação foi dando lugar à constatação de que o problema não era a parte da chave, que possuía uma unidade fixa; mas sim que a dificuldade era o trinco da maçaneta. Murchou.
            Três horas da tarde e decidiu que iria fazer um escândalo, embora já não se encontrasse no recinto quase ninguém da multidão da manhã. Não conseguiu de novo. Agora iriam rir dele não somente por ter se trancado no banheiro, mas porque teve vergonha de pedir ajuda. Olhou repetidamente para o molho de chaves e raciocinou: “e se eu usar as chaves para simular uma maçaneta?” Tentou com a mais grossa e nada. “Não tem jeito”. Quando desistia, decidiu juntar a chave grossa com uma mais fina: pimba! Conseguiu! Nem acreditou quando a porta se abriu. Melhor, não tinha praticamente ninguém nesse momento. Pegou a mochila e saiu vitorioso como se nada tivesse acontecido. Encontrou alguns colegas que perguntaram por que ele estava até aquela hora no trabalho, tendo em vista que tinha dito no dia anterior que sairia cedo, para a formatura. José dizia que tinha tido alguns imprevistos no seu setor, mas que estava tudo resolvido. Rapidamente, fez seu serviço e foi embora para casa se aprontar, exausto.   
            Aconteceu a formatura. José Confinado estava todo bonito: uma camisa social branca, calça azul marinho e sapatos pretos bem engraxados. A família toda ali. Até os pais. Que orgulho! O único da família a passar a barreira do Ensino Fundamental. Na verdade, José já fazia planos para uma possível Faculdade.
            No momento exato, o agora “Livre do Cárcere” pôde fazer, ou melhor, ler o seu discurso, que havia sido cuidadosamente preparado por ele e revisado pelo seu professor de Português. A redação não era muito extensa, porém bem elaborada. Devido à experiência “incrível” vivida naquele dia, o orador alterou a parte final do texto que ficou mais ou menos assim:

            Enfim, com lutas chegamos até aqui. Mas esse não é o fim. É apenas o princípio de uma longa caminhada em busca do saber, do conhecimento. Sabemos que muitas pedras vão estar em nosso caminho; muitos imprevistos. Porém, saibamos de uma coisa. Quando o inesperado, a crise, o problema, a dificuldade e o desafio chegar, não devemos nos desesperar. É importante ter calma! Sempre haverá uma saída. É necessário parar e pensar. Raciocinar para encontrar a melhor estratégia ou quem sabe a única forma de superar a crise. Não nos esqueçamos de procurar ajuda. Não tenhamos vergonha de buscarmos a contribuição do próximo, mesmo que por um momento fiquemos constrangidos. É bem mais proveitoso pedir ajuda e ganhar tempo do que se estressar tentando resolver sozinho. Pode ser que solitariamente cada um de nós consiga vencer, todavia demoraremos e nos desgastaremos mais. Se agirmos assim, raciocinando e sem medo de contar com o outro, certamente triunfaremos e as portas da vida se abrirão para nós. Que Deus nos abençoe!
           
Na segunda-feira, José fez seu primeiro grande ato no trabalho já como ex-colegial: consertou a maçaneta da porta do banheiro, para não correr o risco de se trancar de novo, afinal, já havia se aberto para uma nova vida.              

(Gilmar Cabral - Livro Histórias Recolhidas)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Educação Bancária



            Talvez alguém ao ler o título deste conto possa pensar que este texto vai abordar uma tese bem conhecida no meio Educacional, a saber, a teoria da “Educação Bancária” versus a teoria da “Educação Problematizadora”, do grande mestre brasileiro Paulo Freire. Não é bem isso. Na verdade, não é nada disso; embora até haja a possibilidade de se pensar esta narrativa tanto do ponto de vista de uma proposta de fazer do outro (no caso o leitor) um depósito de informações (Educação Bancária), quanto da forma de ver o outro (o mesmo leitor) como um ser pensante e que tem condições de analisar criticamente as informações a ponto de problematizá-las de tal modo a tirar conclusões autônomas (Educação Problematizadora). Espero que você seja um tipo de leitor da segunda hipótese. Portanto, vamos lá!  

            O que passo agora a narrar aconteceu comigo um dia desses em que fui ao Banco fazer uns pagamentos e sacar uns tostões. A bem da verdade, isto acontece quase sempre que vou ao Banco e creio que acontece com você também; pois, é praticamente rotineiro o Banco estar cheio, não é mesmo? Mas naquele dia foi especial ou incrivelmente absurdial! Bom, cheguei e vi a fila “quilométrica” (para variar), e isto era a fila do caixa eletrônico que, para meu desespero, só havia um funcionando, dos cinco ali instalados. A coisa tava tão feia, que nem o ar-condicionado do recinto funcionava. Brincadeira! Devia ter uns trinta na minha frente. Detalhe: destes, uns dez eram de velhinhos que não enxergavam nem o rei momo a dois metros de distância. Que dureza! E cada um, que custosamente chegava ao caixa, chamava um daqueles assistentes ou atendentes adolescentes que, sem paciência nenhuma, atendiam mal e aí faziam com que os velhinhos os chamassem novamente. Não é mole não! Sem contar, que o “sistema” estava parando toda hora. Fala sério!

            Fazer o quê? Precisava dos serviços bancários. O jeito foi aturar. Me aproximei bem perto da fila e fiz a tradicional pergunta:

            _ A senhora é a última da fila? Ao que ela respondeu:

            _ Sim, miseravelmente sou!

            Já deu pra eu sentir que o negócio estava ruim mesmo. Fiquei calado. Falar o quê? Tá doido, tomar um fora de graça! Daqui a pouquinho chegou um, dois, três, quatro... atrás de mim. A fila se estendeu mais. Era por volta de onze horas da manhã, e já havia umas cinquenta pessoas esperando a mórbida lentidão da fila andar.

            Não demorou muito, pois já aconteciam alguns comentários de insatisfação e desaprovação da coisa, para os protestos aumentarem:

            _ Bota mais caixas eletrônicos, seus mãos de vaca!

            _ Isto é um absurdo! Que que estes donos de Banco estão fazendo com o dinheiro do povo?! Por que não fazem manutenção nessas máquinas ou então trocam elas, meu Pai!?

_ O povo tem que sofrer mesmo, não é?!     

Eu também, que não sou de ferro, comecei a chiar fazendo coro com eles:

_ Isso é tudo uma corja que só sabe endinheirar-se a custas do suor do povo brasileiro!

E recebia a aprovação do povo:

_É isso mesmo, cara!

Só que, vendo que os protestos não adiantavam, percebi que as pessoas começaram a trocar o lado do disco, isto é, passaram a falar sobre outros assuntos: uns interessantes, outros ridículos e outros emocionantes. Vou começar pelos interessantes. Falamos sobre a crise econômica e política do sistema capitalista mundial, o governo Dilma, a questão da violência, a crise política no Oriente Médio, a sucessão presidencial americana, o custo de vida em algumas capitais do país e as suas diferenças, as novas descobertas científicas para a cura da AIDIS e do câncer, os buracos não, as crateras na camada de ozônio, os novos tratamentos fitoterápicos para doenças crônicas,... etc.... Nessa, eu interagi com uns quinze. Foi legal. Aprendi muita coisa que eu não sabia sobre esses e muitos outros assuntos que conversamos ali. É lógico que cada um tinha a sua opinião e, às vezes, divergíamos, discutíamos, mas tudo acabava bem, apesar da irritação com a demora na fila.

Porém, não posso deixar de falar sobre os “causus” ridículos que ouvi e vi ali. Teve uma mulher que estava a três pessoas na minha frente, mas virada para trás. Como aquela senhora era ridícula! A começar pela roupa. Devia ter uns cinquenta e cinco anos, todavia queria ainda ser “garotinha”. Usava uns meiões coloridos com uma saia minúscula, além de um “tomara que caia”, que cá pra nós, nem precisava ter esse nome porque já estava tudo caído mesmo, mas vamos lá! E a boca? Com um batom vermelhaço! Olhos azuis em todos os sentidos e um cabelo que parecia do palhaço Bozo. Que que era aquilo?! E a conversa? Só vantagem:

_ Sabem, já namorei tanto e até hoje ainda me querem. E eu me perguntava: “quem vai querer isso?! Só  desesperado ou cego.” Ela insistia:

_ Essas menininhas de hoje têm que aprender comigo como ser sensual.

Aí eu ri........Brincadeira!

Com esta senhora aprendi que bom senso e senso de ridículo não fazem mal a ninguém. Mas não parou por aí o meu aprendizado naquele dia. Um rapaz, muito mal humorado, reclamava o tempo todo, porém não era da fila interminável, era de sua família. Chamava o pai de beberrão, a mãe de lesada, os irmãos de cínicos e a esposa de abestalhada. Pelo jeito não tinha filhos; ainda bem para os pobrezinhos. O cara era um chatonildo de galocha. Ninguém mais aguentava ele falando horrores de seus parentes. Não escapava ninguém. Até um sobrinho recém chegado levou o “apelido” de estorvo.  Estorvo era esse cara. Ele encheu tanto a nossa paciência que um brutamontes que estava no final da fila, já injuriado com a demora, bradou:

_ Cala a boca aí o estrume! Chega de denegrir a sua família ó palhaço!

O rapaz (que deveria se chamar “Malito Sem Alça da Silva”) até esboçou retrucar com palavrões, mas de bobo não tinha nada e, ao perceber o tamanho da encrenca que arrumaria, ficou na dele. Ufa! Todos suspiraram. Até que enfim ele se calou. Aprendi com o “malita” a não manchar a imagem da minha família, pois, apesar de suas limitações e dificuldades, é a nossa família e ninguém gosta de ouvir falar mal da família porque vê a sua própria refletida nas palavras agressivas.

Todavia, o silêncio durou pouco. Uma criança de quatro anos danou a perturbar a fila. Estava com o seu pai, no entanto é como se estivesse sozinha. Pintou e bordou com a cara do homem. E se jogava no chão e o homem a levantava e dizia:

_ Para, filho. Não faz isso senão papai fica triste...

O garoto nem aí. Rolava pelo chão. Pulava. Gritava. Chorava. Com agressividade falava:

_ Me dá! Eu quero o boneco do Ben 10!

O pai paciente dizia:

_ Filho, papai não tem o dinheiro suficiente aqui na carteira para comprar. E o garoto:

_Tem sim, seu mentiroso!

O pai, sem graça, dizia para nós:

_Ele é assim mesmo. Depois ele acalma. Eu sou paciente, compreensivo, um bom ...

Aí eu no pensamento completei: “E um bom painaca”! Que frouxo!

Vencido pelo filho, o “boneco” foi embora comprar o boneco. Não é mole não! Neste episódio entendi como não se deve ser pai.

Um outro bem na minha frente virou-se para mim e os demais, e começou a dizer o que ia fazer com o dinheiro do fundo de garantia por tempo de serviço. Até aí tudo bem. O problema é que ele cuspia pra dedel quando falava. Misericórdia! Era uma chuva de saliva. Tem mais: acho que ele tinha bebido ou cheirado alguma coisa porque dizia que faria tanta coisa com aquele dinheiro. Só que nem me lembro direito o que ele pretendia, pois a “chuva” era tanta que não conseguia pensar em outro fato a não ser me livrar do “Tiozinho Cospe Cospe”. Aprendi que não se deve falar tão perto das pessoas, principalmente se você tem um chuveiro na boca, e nem ficar com ideias mirabolantes de compra com apenas uma mixaria para receber. Tá doido! Que frustração aquele coroa deve ter tido!

O caso mais ridículo foi uma discussão entre um casal quase no fim da fila. A mulher, feia pra lascar, cobrando do homem, outro feiosão, o fato dele ter chegado tão tarde na noite anterior, em casa.

_ Onde você esteve seu sem-vergonha?!       

_ Não te interessa mulher!

_ O quê?! Você sai, bebe todas e se envolve nas imundícies com as mulheres da rua, e vem me dizer que  não me interessa?!

_ Tá vendo! Se você já sabe o que eu fiz pra que que perguntou?!

_ Pra isso! E deu na cara do homem. Mas foi um tapa tão bem chapado, que o homem deve estar até hoje vendo estrelas. E a seguir emburacou pra cima dele: tapas, socos, ponta-pés, palavrões, unhadas, puxões de cabelo... Não deu pro cara nem reagir. Já não tinha muitos dentes. Acho que deve ter sobrado somente uns dois na boca porque, pelo jeito, já estava tudo mole de cárie mesmo; eram “cotocos”. Enfim, chegou a turma do “deixa disso”, tudo se acalmou. Meu aprendizado foi claro: ser fiel até a morte e não chegar tarde em casa.

Entretanto, tenho que citar o fato do meu cabedal de conhecimentos também ter sido acrescido de experiências emocionantes. Ouvi histórias de amores não correspondidos, de crianças desaparecidas, de famílias que sobrevivem com pouco dinheiro, mas possuem amor e companheirismo; ouvi histórias de pessoas que trabalham como voluntárias em Hospitais como os que tratam pacientes com câncer, todavia uma história que gostaria de compartilhar falou muito comigo. Foi a que ocorreu com uma garotinha de 5 anos, que estava com a avó (para mim até essa altura dos fatos era apenas avó da menina) na fila. Mesmo elas tendo ido para a fila de idosos, que finalmente foi restabelecida, deu para escutar um pouco do caso. 

A menina havia sido encontrada numa sacola plástica dos Supermercados Guanabara, junto com as bolsas de lixo duma esquina, do bairro de Cavalcante. A avó, ou melhor, mãe de criação da menina foi quem a encontrou. Naquele dia, havia saído cedo de casa, como de costume, para ir ao médico a fim de realizar uma consulta de rotina. Quando a idosa chegou perto dum poste onde ficavam as sacolas de lixo esperando pelo Lixeiro passar, ouviu o choro do bebê. Aflita, à priori não acreditou que pudesse ser uma criança. Mas, ao se aproximar mais ainda, percebeu que se tratava de um neném recém-nascido. Pegou a criança e rapidamente tomou um táxi e foi para o Hospital mais próximo. A garotinha tinha apenas 12 horas de recém chegada ao mundo. No início, foi muito difícil. Quase que a criança não sobreviveu. Após três meses de acompanhamento médico diário, a menina foi liberada. Ficou inicialmente sob os cuidados do Conselho Tutelar da Cidade. A bondosa velhinha quis a guarda da criança e entrou com um processo de adoção. Com a ajuda divina e a simpatia da juíza, tudo foi resolvido e a criança teve seu lar. Ali estava ela, bela, sorridente e feliz com a sua vovozinha-mãe. Uma história que tinha tudo para ser trágica, virou uma bela crônica de amor que faz bem pra vida.

As lições foram imediatas: se há pessoas capazes de jogarem um ser humano indefeso no lixo, sempre também haverá seres humanos capazes de realizarem grandes atos de amor e de acolhimento; há! Também: é preciso ficar atento, pois numa esquina pode estar uma linda experiência e a mudança radical da nossa vida. 

Por fim, chegou a minha vez de ir ao caixa eletrônico. Que absurdo! Esqueci a senha! Depois de tanto tempo esperando, já com as pernas cansadas! Tive que voltar no outro dia. Lições: nunca esqueça a senha ou então, para não acontecer isso, leve-a registrada num papel. Porém, cuidado! Alguém pode ler ou copiar a sua senha. Atenção com o ataque da “saidinha de banco”! Fique esperto! Se for possível, não tire dinheiro grande, a não ser que esteja acompanhado. Seja cuidadoso. Não fui, me ferrei!


(Gilmar Cabral – conto publicado no livro Histórias Recolhidas)

Resposta Imediata



Ontem eu pensei que acordaria muito bem pela manhã. Ledo engano! Acordei e logo comecei a passar mal. Aliás! Quem é que pensa em acordar mal? Todo mundo acredita e deseja despertar de forma agradável, crendo que terá um bom dia, legal e cheio de realizações para variar. Não é mesmo? 

Mesmo assim, fiz o que tinha para fazer e me aprontei para o trabalho, pois "pegaria" no serviço só à tarde. Avaliei se conseguiria trabalhar e decidi que não faltaria ao emprego de jeito nenhum. Dava para aguentar.
            
 Aprontei as crianças para a escola e saí. Antes, já havia sido informado por minha esposa ao telefone que a passarela quebrada na semana passada já estava consertada. Pois é! Desta vez o serviço público foi de uma eficiência invejável. 
            
 Acredito que na vida acontece assim também. Existem "consertos" que levam anos para aconteceram, porém há outros que são ajeitados da noite para o dia. Vale dizer que nem esta notícia, aparentemente boa, me animou. 
            
Como ainda sentia-me mal, passei a reclamar; reclamei de mim mesmo, do mal-estar, da vida, cheguei até a reclamar com Deus; como se Ele tivesse culpa. Na verdade, em minhas confusões mentais, eu queria respostas, solução. Nada adiantou. Só piorei as coisas já que acabei por enfermar a alma além do meu pobre corpo. 
            
             Bem, cumpri meu ritual de sempre e "peguei" o ônibus. Quando estava quase chegando ao meu destino, percebi que uma senhora estava para descer e segurava firme um livro com a mão direita. Parte de seu antebraço cobria um trecho do título, o que me deixou intrigado já que gosto de ver o que os outros estão lendo. Comecei a tentar decifrar o título, mas faltava um pedaço coberto pelo antebraço da dona. Pensei: "ela vai descer e eu não vou conseguir juntar as peças do 'quebra-cabeças' ". Até que, enfim! Ela tirou o empecilho ao tentar se segurar para descer e, aí, pude ler o título por completo: "Pare de Reclamar e Concentre-se nas Coisas Boas". Não vi quem era o autor, parecia ser um livro de autoajuda, o que se evidencia pelo título. Não importa. O importante foi o impacto desse pequeno texto em mim. Certamente, nunca esquecerei esta experiência. 
          
           Olhei para "o meu interior" e disse a mim mesmo: "Deus, fostes rápido na resposta às minhas reclamações". É como se pudesse ouvir o Senhor dizendo: "Deixe de ser reclamão! Concentre-se no que a vida tem de agradável e bom! Ofereci a você tantas coisas boas e você se trancafia nos problemas! Com certeza nem reparou que foi melhor passar mal em casa do que na rua! Deu tempo para você se recuperar para trabalhar em paz à tarde. Você viu como seus filhos estavam bem e sorrindo de alegria com a sua presença pela manhã, algo inusitado para eles, viu não né?! Não, nem notou porque se concentrou no problema e não nas coisas boas em sua volta. Deixe os bons momentos da vida falarem aquilo que você ainda não ouviu por estar surdamente comprometido com o negativo, com o pessimismo e com o desânimo." 

            Compreendi que estava tomando um "toin" de Deus. Todavia, foi bom! Fez-me acordar verdadeiramente e não apenas porque levantei da cama.

(Gilmar Cabral – conto publicado na Antologia da Câmara Brasileira do Jovem Escritor ).